Tempos da escravidão

Eva Maria de Jesus, popularmente conhecida como tia Eva, nasceu em meados do século XIX no sul de Goiás, quando ainda imperava a escravidão no Brasil. Foi na fazenda Ariranha, de propriedade de José Manoel Vilela, onde a tia Eva nasceu e foi criada desde cedo para desempenhar os afazeres domésticos da propriedade.

Em vermelho, a região de Mineiros-GO, local onde nasceu tia Eva

Cada escrava doméstica tinha uma atividade definida no interior da casa do senhor, sendo que as especialidades  variavam entre lavadeira, cozinheira, faxineira, ama de leite, parteira, entre outras. De acordo com Waldemar Bento de Arruda (filho de escravos contemporâneos a tia Eva – entrevistado por Plínio dos Santos em 28/04/2008) ,

A história de tia Eva foi muito interessante, ela foi escrava, ela trabalhava pros Vilela desde pequena. Lá onde ela morava em Jataí, naquele tempo do cativeiro, era no tempo dos reis, rainhas, aquela coisa toda […]. Aí tia Eva era especialista em fazer doce, cada uma fazia alguma coisa, cada uma das escravas ” (PLÍNIO DOS SANTOS, 2010, p. 251).

Na fazenda onde tia Eva era escrava, os maus tratos com diversos tipos de violência eram frequentes. De acordo com relato oral do Seu Waldemar, uma das memórias dessas violências frequentes era contada por tia Eva:

Mas a coisa mais impressionante na fazenda que tia Eva trabalhava, que ficava em Jataí, o patrão, o homem lá, ele almoçava e depois ele cochilava. E tinha uma preta lá que era muito estimada, aí o menino dela ficou doente e começou a chorar. Aí o patrão dela falou: Olha, eu não vou dar fim nesse menino, mas esse menino está muito manhoso, dá um jeito nele. Quando eu estiver deitado, dormindo, eu não quero ouvir o choro desse negrinho aqui, você dá um jeito nele. E ela era ocupada no serviço. Mas teve um dia que o menino chorou e gritou lá: Mãe. Ele estava com gripe, alguma coisa assim. Aí o patrão levantou e mandou ela pegar o menino. Ela pegou o menino e ele pegou um chicote e falou com ela: Você me acompanha. Ela pegou o menino e o menino chorando com catarro no nariz. Aí chegou no córrego. Aí, chegando lá, ele falou: Você pega esse negrinho e joga no córrego, não quero ouvir mais o choro desse negrinho. Ela abraçou o filho e se jogou no córrego junto com o menino, morreu ela e o menino. Aí o homem voltou sem graça para casa. Isso aconteceu nessa fazenda. Tia Eva contava essa história “(PLÍNIO DOS SANTOS, 2010, p. 158).

Mesmo sob forte vigilância e violência, os escravos formavam uma rede de irmandade e compadrio que ligavam regiões distintas. Informações sobre castigo, fugas, nascimentos e mortes circulavam entre os escravos. Tal rede de irmandade e compadrio chegou a estabelecer vínculos afetivos e familiares, conforme narrou Seu Waldemar:

Os escravos não eram bobos não! Isso eles não eram. Igual hoje que tem jornal, as notícias andavam na perna do escravo, um falava pro outro e aí, no final, todo mundo sabia, tudo eles sabiam, quem tinha morrido e de que, quem tinha fugido, e aí vai. Os que trabalhavam na casa, falava, aí os que ia na cidade, falava, tinha muita fofoca também ” (PLÍNIO DOS SANTOS, 2010, p. 258).

Ainda na fazenda Ariranha, durante a década de 1870, a escrava Eva deu luz à três filhas: Sebastiana, Joana e Lázara, todas de pais diferentes. Sem precisar o período em que ocorreu, Seu Waldemar relatou que em certa época, tia Eva foi afastada dos trabalhos na sede da fazenda por conta de uma ferida na perna, ocasionado por um acidente com banha quente.

[…] então, ela ficou com aquele queimado sem cicatrizar, e ficou com mau cheiro na perna dela. […] Aí, por causa do cheiro da ferida, […] fizeram um ranchinho pra ela lá no fundo do quintal da casa da fazenda, mas ali mesmo ela trabalhava, fazia sabão” (PLÍNIO DOS SANTOS, 2010, p. 254).

Mesmo após a Lei Áurea, que extinguiu a escravidão no Brasil em 1888, tia Eva continuou trabalhando na fazenda Ariranha, já que tinha três filhas para sustentar e uma ferida na perna que não cicatrizava.